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Na cena: 3 dançarinas experientes constroem um circuito individual. Provam, em seus corpos e no espaço, uma dança a partir de 7 verbos – Derreter - Escorar - Tossir - Escutar - Equilibrar - Sacudir - Descansar – que se relacionam com o conceito de Choque, de Walter Benjamin. Trabalham sobre particularidades de movência de si próprias e das coisas, compartilhando com o público 3 versões distintas de circuitos energéticos.

Anestesiadas, precarizadas e cheias dos estímulos externos/mundo, refletem sobre relações de poder e comando respondendo com alguns desânimos às solicitações mundanas para corpos desestabilizados.

Insistem em mover pompom, estalinhos, lágrima, diafragma, cabelo, capuz e cuspe a fim de avisar que estamos, em 2025, chocadas e passadas. 

FICHA TÉCNICA

idealização, direção e dramaturgia FERNANDO DE PROENÇA | com CARMEN JORGE, ELKE SIEDLER e JULIANA ADUR | interlocução DIEGO MARCHIORO | luz BETO BRUEL e LUCAS AMADO | roupa AMABILIS DE JESUS | trilha sonora e preparação vocal JULIA KLÜBER | bateria BABI AGE | captação e edição de bateria GUI MIUDO | consultoria de produção musical LEO GUMIERO e RHODEN | músicas ALERTA ANTIFASCISTA (João Gordo) e FALTA ALGUMA COISA (Zécarlos Ribeiro) | seminário "Choque em Walter Benjamin” FÁTIMA COSTA DE LIMA | clínica do processo ELENIZE DEZGENISKI | foto MILLA JUNG | vídeo ALAN RAFFO | identidade visual LUANA NAVARRO | design gráfico ADRIANA ALEGRIA | teaser e estratégia de mídias digitais GABRIELA BERBERT | site JULIA BRASIL | assessoria de imprensa PAULA MELECH - LINHA COMUNICA | audiodescrição - roteiro e narração JOSELBA FONSECA e HELENA DE JORGE PORTELA - consultoria LUCAS ANTONIO | tradução em libras TALITA GRÜNHAGEN - TAÉ LIBRAS | estagiária MARIA EDUARDA RODRIGUES | direção de produção DIEGO MARCHIORO | produção executiva CINDY NAPOLI | realização FERNANDO DE PROENÇA e RUMO DE CULTURA

 

Esta peça estreou dia 01 de outubro de 2025, no Miniauditório Glauco Flores de Sá Brito - Centro Cultural Teatro Guaíra.

TRÊS DE MUITAS

Por isso não provoque, é cor-de-rosa choque. 

 

Três mulheres provam diante do público 3 versões de um circuito particular que, na mistura, monta um coletivo multidirecional de intensidades corporais que vão do riso ao choro, do canto ao gemido, do vulto à nitidez. Desenham no espaço trajetos únicos que, sobrepostos, criam  possibilidade de viver pela - e não apesar - da diferença.

 

Fazem danças energéticas que mobilizam estados de corpo - vivo - a partir da ideia de Walter Benjamin sobre Choque - corpos hiperestimulados se blindam de mais um estímulo porque não aguentam, saltam deste estado com outro um choque - de microrrevolução. Juntas e lentas, vivem em seus corpos a experiência de derretimento, escoramento, tosse - contaminação, escuta, equilíbrio, sacudida e descanso. 

 

Atravessam o palco, embolam-se no palco, pisam com as mãos - rachadas de dança, tateiam com os pés - rachados de dança, decidem viver a experiência em cima dele - em modo dança – rachada. Precisam decidir rápido porque estão ficando atrasadas. 

 

Se escondem para mostrar, graves e agudas, mostram o que escondem - hiperbólicas. Provam, de novo, que dançam. Suas histórias mexem com seus corpos e as relações na cena, são mulheres experientes que vivem a devoção à dança na frente da audiência. São três de muitas. São ímpares porque são 3 e porque são uma. Quem pode, pode. 

 

Provocam o mundo ao mesmo tempo que pedem para ele parar que elas vão descer. Anunciam o tempo. Dobram o corpo, esticam o pescoço, cochilam sem querer, não sacodem um pompom - afinal, não são torcedoras. Sacodem o corpo - afinal, são dançarinas. 

 

Tudo vezes três. Multiplicadas pelos gestos e catalisadas pelas flechas clandestinas da inspiração, falam frases incompletas, escutam música pesada. Estão agora no palco com delicadezas à parte. 

 

Mulheres que trabalham com contra forças - dialéticas, apro e afundam no assunto vezes 7 verbos. Vezes 3. Todas as vezes que estão dançando - vezes muito - vazam pelo olho - líquido, pelo joelho - sinovial, pela testa - gota

 

Não começam, continuam. A metáfora é pública. A luz não recorta e não separa, não edita e não divide, não sublinha, não salienta - se abre. O público, dentro, experimenta verbos como sentar, olhar, mexer, calar, ajeitar, pensar e, como é público, tossir. 

 

A música são três. São versões e tem uma que é só refrão, sem estrofe. A roupa não é figurino, não são personagens, não são personas, não são arquétipos, são gente no palco lidando com gente na plateia. Agentes. 

 

Animam coisas ordinárias, compradas ali na esquina, algumas até por menos de 1 real. Gastam com isso, com coisas que são vagabundas. São inúteis no palco. Trabalham com inutilidades há 30 anos. São professoras, isso dá pra ver na cena. São artistas, também dá pra ver. Manejam sensações - delas e da recepção. E depois saem. Saidinhas, sem os corpos mais ali no palco, sobram coisas - um papel higiênico assoado, por exemplo. Uma memória recente, por exemplo. Um teto de luz rosa choque, outro exemplo.

 

3 mulheres, uma de óculos, uma de olho e uma agasalhada. 3 diferentes. Uma quer ficar pra cima, outra quer ficar em baixo, uma quer sentir no palco como nunca. Equilibra a cabeça, todo dia, toda hora. Uma hora, equilibra com o dedo do meio. Outra hora, faz a parada de cabeça. Param, pausam, caminham, pulam, tremem, fazem tremer e fazem o teatro - lugar do palco -  tremer. 

 

Elke Siedler é articulação – Juliana Adur é músculo – Carmen Jorge é osso.

 

Não sei, falta alguma coisa.

 

E hoje quando eu chegar lá no escritório

Eu dou um jeito no meu rosto e nos cabelos

Coloco uns livros na estante

E uma flor na minha mesa

Eles nem vão notar

Que falta alguma coisa em mim.


Fernando de Proença

idealizador, diretor e dramaturgo

Começou com a explosão de um choro, daqueles que ficam contidos dentro do corpo por muito tempo, acumulado após milhares de microchoques cotidianos. Um choro que fica chorando por dias, derretendo, escorrendo por todos os lados, infiltrando umidade pelos poros e esparramando secreções. Atônita, perplexa, passada-chocada. 

Aos poucos o choro transbordado, derretido feito iceberg, foi virando corpo que sobrevive aos choques porque dança. Os olhos, arregalados, esbugalhados, assustados, acompanham quase em transe as paisagens de dentro desse corpo à beira de um colapso. A musculatura entra num jogo de negociações tônicas, transitando entre o ceder e o resistir, o desabar e manter-se em pé, força e contra força pra sobreviver. Tudo treme e treme muito e sem parar, como um vulcão prestes a entrar em erupção.

Um circuito ininterrupto de sensações, emoções e imagens aglomeradas de uma centena de corpos exauridos que insistem e vão se escorando onde dá. Vou me agarrando na promessa de um possível descanso ou de um novo futuro onde a pausa seja rotina e não revolução. O corpo se reergue com a coragem da mesma musculatura que, paradoxalmente, teima em ficar no chão. E os pés, buscando dar um passo muito maior do que a própria perna pode suportar, me coloca em estado constante de desequilíbrio e de não saber onde tudo isso vai dar. 

Acho que eu tô um pouco engasgada!

O choro segue chorando a peça toda, um choro de susto, choro de nervosismo, outro de desespero e algum de descompressão. Choro que também é denúncia e pedido de socorro. Movimentos chorados e soluçados em diferentes camadas e com diferentes energias, com mais ou menos líquidos, e às vezes com pequenos ais para desafogar o peito. 

Uma dança-choro ou um choro-dançado.

CHOQUE é uma dança feita da tessitura sensível de estados de vida e morte que o corpo atravessa todos os dias, num mergulho radical de ser quem se é ao extremo, sem medo das intensidades. Ela é dançada por mulheres-bomba que se arriscam no devir de uma coreografia que está desmoronando e se reconstruindo a cada instante. É cor-de-rosa CHOQUE e é chocante porque escancara no singular, uma coletividade anestesiada, nublada, ao mesmo tempo em que propõe uma condição de presença e de vitalidade. Uma condição de repouso como potência máxima de existir.


Juliana Adur

dançarina

Walter Benjamin observa que, na modernidade, a vida cotidiana é atravessada por uma sucessão de estímulos intensos e fragmentados. O ritmo acelerado da cidade — trânsito, multidões, publicidade — submete o sujeito a impactos constantes, que exigem respostas rápidas e automáticas. Esse excesso de estímulos gera aquilo que ele chama de Erlebnis (vivência imediata, fragmentada), em contraste com a Erfahrung (experiência acumulada, contínua, que produz memória). O choque, nesse contexto, surge como interrupção: uma ruptura que fere a continuidade da experiência e obriga a consciência a reagir.

É justamente essa noção benjaminiana que a peça Choque, dirigida por Fernando de Proença, incorpora em sua dramaturgia. Tanto no conteúdo — três mulheres de meia-idade esgotadas pelas demandas incessantes da vida urbana — quanto na forma — a justaposição de imagens de si mesmas que criam descontinuidades perceptivas — a obra convoca o espectador a um exercício ativo de atenção. Não se trata de acompanhar passivamente, mas de enfrentar uma espécie de abalo simbólico no palco.

O choque, aqui, funciona como estratégia estética e política: desautomatizar o olhar, provocar interrupções e abrir espaço para novas formas de perceber o viver em movimento. A lente benjaminiana nos ajuda a compreender a potência dessa obra, em que as dançarinas (Carmen Jorge, Elke Siedler e Juliana Adur) exploram o limite do corpo em exaustão diante de um mundo que não cessa de exigir produtividade. O choque, para Benjamin, é ferida e despertar; no espaço da dança, ele se traduz em gestos que nascem da fricção entre cansaço e resistência, entre desistir e persistir.

O cansaço, longe de ser apenas sinal de fraqueza, torna-se matéria de criação. O corpo esgotado revela sua vulnerabilidade, mas também inventa outros modos de mover-se: derreter, escorar, tossir, escutar, equilibrar, sacudir e descansar transformam-se em lampejos de sobrevivência. Nesse estado-limite, o choque deixa de ser apenas uma interrupção dolorosa e passa a operar como potência de atenção intensificada — um despertar tanto para as artistas quanto para o público.

Assim, Choque encena a linha tênue entre enlouquecer e resistir. O corpo exausto parece à beira do colapso, mas justamente aí encontra novas forças de invenção. A experiência artística não disfarça o esgotamento; ao contrário, faz dele um lugar de passagem, uma abertura para outra sensibilidade. Tal como Benjamin via no choque da modernidade uma possibilidade crítica, a dança mobiliza o choque do corpo fatigado como gesto político e poético: a interrupção do fluxo ordinário da vida para afirmar que, mesmo no limite, ainda é possível dançar.


Elke Siedler

dançarina

CHOQUE nos desafia. Nos oferece um potente jogo de negociações, ajustes, soluções em tempo real, numa estrutura pensada com o rigor que uma dança e/ou performance necessitam. Construir um campo energético que pulsa, pulsa, pulsa e se retroalimenta. Para minha organização uma figura oito na vertical, uma banda de Moebius, um dentro fora ininterrupto do início ao fim. A dança se constrói ao ser dançada, sem concessões.

Segundo a Klein Technique, os ossos são os maiores e potentes condutores energéticos do corpo, não são reativos, são porosos, correm sangue, são as águas profundas. Nessa edificação, nessa infinita investigação da verticalidade nasceu a radicalidade da minha dança chocante.

Os músculos (ainda com Klein), são reativos, reagem a tudo, são emocionais. Complexa simbiose, um edifica o outro reage. O amálgama dessa dança é um verbo: LIBERAR. Precisamos dar chance para as negociações acontecerem.

No ambiente da performance coabita-se com o corpo/dança muscular e o corpo/dança articular de parceiras obstinadas. Sons e afirmações brotam desses corpos. Vivemos poéticas do dentro-fora-dentro. Entrada e saída de ar, balbuciando, rindo, grunhindo, falando, nada simplesmente. Pura ebulição.

Todo o entendimento de corpo, corpo cênico, estratégias e delicadezas são colocadas para jogo.

 

Carmen Jorge

dançarina

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Curitiba - Paraná - BR

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